domingo, 6 de janeiro de 2013

A Sereia de Pigmalião



Será a mais bela.
Dizia o artista para si mesmo, todos os dias. Dizia para o vento, dizia para a água, para os deuses, e dizia para o grande bloco de mármore.
As outras têm falhas. Será a mais bela.
      As meretrizes fediam a pecado, as senhoras casadas, a dissimulação. As donzelas fingiam inocência e as anciãs confundiam sabedoria com fofocas.
            Mas você não. Será perfeita.
           Quando se cansou das fêmeas artificiais que era obrigado a aturar todos os dias, o artista foi ao ermo, para as terras esquecidas que pertenciam aos tios. Em meio a tantos gracejos, falsidades e luxúria, não poderia enxergar a Musa, tampouco a alma que ela escondia. Haviam-se passado meses desde que produzira algo; a febre da criação é a verdadeira amante dos artistas, sua falta é a verdadeira doença. A febre é sua saúde.
            Na cabana, longe dos sussurros e gritos da cidade, ele pôde ouvi-la melhor, ao silêncio também, mas quis mais. Queria vê-la. Seus contornos e seios, ancas e tornozelos, os olhos de ouro e entre as coxas o tesouro. Inspirou-se na inspiração, e a febre tomou-o como lepra. Caíam-lhe a vaidade e o medo, junto com o pudor. Cada martelada no cinzel soava como nota aguda de coito, uma música sensualmente indecente, e o artista esquecia-se do mundo.
            Quando a pedra mostrava-se rígida às estocadas de suas ferramentas, o artista sabia que sua Musa não estava satisfeita. Ele se recolhia a um canto e esperava, só esperava, até que a moça sem forma acalmasse os humores. Magoava-o profundamente vê-la daquele jeito, insatisfeita com a vida que ganhava.
            Também não estaria satisfeito se vivesse algemado.
            E assim, seus esforços dobraram, dominado pelo desejo de libertá-la da rocha, lasca por lasca, sentindo que ela sorria a cada golpe, toda vez que o cinzel e o martelo cantavam e a faziam gemer. O artista podia sentir-lhe o calor, o prazer, o membro enrijecer conforme lhe esculpia a virilha e o que vinha depois. Desejava-a, mas ela ainda estava presa demais à rocha.
            Nem a fome ou a sede afastavam-no de sua Musa. A pele era nada mais que couro pálido sobre os ossos, estendida de modo a imitar o homem que um dia foi o artista. As curvas da Musa se definiam enquanto as dele endureciam e grudavam-se às costelas. Ela ganhava vida, podia ver, podia sentir, a cada dia, mais e mais e mais e mais ainda, até que, quando os pés enfim estivessem livres, ela poderia se erguer. E dançar, seria maravilhoso se pudesse dançar. Poderiam dançar juntos, não naqueles bailes em que as fêmeas se empavonavam e mentiam, mas sob a lua e as estrelas, sobre grama e orvalho, à vista do olho dos deuses, banhados pela noite e pelo vinho.
            E lhe farei um filho.
            Chamava-se Galatea. Sabia que era esse o nome, pois ela tinha dito entre sussurros abafados e febris da noite anterior. Disse o quanto ansiava por abraçá-lo, por dançar entre suas linhas, por sentir-lhe de novo as punhaladas do cinzel. E o artista se pôs a trabalhar como louco, lobo alucinado de fome que precisa quebrar os ossos de um animal qualquer antes de lhes sugar o tutano. E quebrou a pedra para lhe sugar o seio, ouvindo os uivos tímidos a cada martelada, e não foram poucas.
            Os uivos cessaram, tão súbitos quanto vieram, e uma leve camada de suor e pó separava-lhes a pele. O delírio ofegante durou pouco; logo o artista percebeu, para sua tristeza, que Galatea, mesmo depois de pronta, ainda era mármore, linda e gelada. A voz ainda era baixa demais para ser uma voz, baixa como o som que fazem as raízes dos montes aose espalhar pela terra, uma voz de estátua.
            Por quê?
            Ela respondia com risos.
            De novo, era dura como pedra. Os seios afiados provocavam-no, enquanto uma das mãos escondia o triângulo enfeitiçado. Galatea é cruel, inflexível, e parecia divertir-se mais com o cinzel. Ele a amava, enquanto ela amava a si mesma.
            Por quê?
            Ela estava livre, mas recusava-se a tirar o mármore de cima da carne. O artista compreendeu que não a teria mais do que já teve, nem Afrodite esquentaria aquele coração tão duro. Ele costumava beijá-la, tocá-la, dar-lhe prazer, mas tudo o que Galatea fez foi usá-lo. Não era uma meretriz, mas uma megera. Os olhos cinzentos zombavam dele, de seu coração mole e adocicado. Fraco, ele ouvia, fraco e fraco mais uma vez. Risos de escárnio assobiavam com o vento, tão frios e cheios de crueldade quanto os beijos que não dava.
            As preces do artista foram atendidas de modo cruel, ossos do ofício. Pediu um corpo para sua Musa, sua Galatea, e os deuses deram-lhe pedra. Rezou por amor, e os deuses deram-lhe uma chaga no peito, uma mácula na alma. Galatea sequer fazia o esforço de tocá-lo, sempre rindo de seu sofrimento.
            - Galatea, oh cruel Galatea! Da rocha dura e fria moldaram-te os deuses, agora o céu ri de mim, seu espetáculo de palco. Já não encontro morte suficiente no passar dos anos, também a encontro nos lábios de Galatea?
            Os deuses impediram-no de ter amor, sempre o fizeram, mas não de ter um martelo em suas mãos. Em seus lábios, Galatea também encontraria morte.
            Tempos depois, as pessoas começaram a questionar o que teria acontecido ao jovem Pigmalião. Não o viam mais presenteando reis e rainhas com suas obras, nem ensinando ladrões e ciganos os caminhos de sua arte. Tão desejoso de agradar, tão ávido por um elogio, tão morto atrás de um sorriso de mármore.
            Seus irmãos procuraram-no na casinha gasta perto do lago, certos de que estava bêbado sobre pilhas de belos cascalhos e membros de pedra. Na pequena cabana, no entanto, ele estava bêbado com outras coisas. Ébrio de umidade, ébrio de mofo e poeira, e ébrio com um beijo. À meia luz que se derramava pelo teto em putrefação, viram mais uma das obras do irmão mais jovem.
            Uma escultura dele mesmo, esculpido em mármore branco mal acabado, contorcendo-se entre os braços de uma mulher toda fúria, volúpia e alegria. Preso em suas curvas, de martelo na mão e lábios ocupados, parecia quase feliz.

2 comentários:

  1. Já tinha comentado que adoro como você constrói os seus contos, de forma calma, mesclando sentimento, gosto muito de lê-los. Esse me chamou atenção pela forma poética que você construiu o erotismo, com elementos simbólicos e lirismo. Gostei também da escolha do nome Galateia, a donzela branca... muito interessante,e da melancolia, fiz algumas considerações imaginarias sobre o desejo de "ter" alguém, mas são tão pessoais que nem perecem ser comentadas, enfim eu poderia passar algum tempo dizendo coisas sobre, mas basta dizer que adorei seu conto e que você está de parabéns :) Abraços, Jan.

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  2. Na verdade, é quase uma reinvenção do mito de Pigmalião e da estátua. É meu primeiro experimento com erotismo, e tinha medo que ficasse clichê, mas to realmente feliz que nao foi o caso :p.... Valeu pelos elogios, abração, Pedro.

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