Na mão tinta, com a ambição pinta
De oferendas os resquícios, mil prendas e feitiços
Ao escuro clama sobre o duro pentagrama
O riso do condenado no piso adornado
Rugido do leão e do ferido furacão
Das hordas de satã com o cheiro de cortesã
Dos demônios do pasto, cuidado! Oh, pobre Fausto!
Palavra dita na encruzilhada maldita
Teu desejo implora pelo diabo de fora
Quer ser Ouvídio, Arquimedes ou Virgílio
Invejando Aristóteles, invoca Mefistófeles!
Sem luz no demônio de olhos azuis
Que te oferece poder e te proíbe morrer
Vê teu intento, que desejas conhecimento
Te abraça e seduz, convence, engana e livra da cruz
Sábio é Fausto, mas não é cauto
Sangue ao caído dá, e é ungido, benzido com incenso e luar
Trato feito, sorriso no rosto sem remorso no peito
E se torna vasto o olho de Fausto
Dominou filosofia, ocultismo e alquimia
Seis anéis no dedo e preto é o gato do mago
Mas nem a astúcia de Mefisto ou a malícia de Egisto
Nem clareza ou rancor pode lhe pôr distante do amor
Lá formosa Margarida, a viçosa de sua vida
Tão doce e tão pura, faca em sua alma escura
Alegra dança, canta e ao feiticeiro alcança
Loira, linda, leve, livre
Doía ela como cisto no velho Mefisto
Que de Margarida fez flor desflorida
Vil injúria, através de Fausto e luxúria
Estupra, e doce vira lenta, lerda, destruída
“Largue dela e se vier, dar-te-ei a mulher que quiser”
Fala o demônio, e pondo a jovem no manicômio
Ao mago traz, que sem saber o mal que faz
Atende ao fogo e o tempo urge, chegam ambos a Walpurge
A orgia das bruxas na casa das chuvas
Com vários deuses e ninfas de Eleusis
Desfilam as fadas perversas e os duendes às avessas
E no silêncio sublime e luz plena, surge a divina Helena
Sim, no céu se apoia a Ruína de Troia
Com seio de fora, entre o antes e o agora
Na luz da fogueira, entre os corvos se esgueira
Embosca o mago com suas curvas, com macio afago e palavras
turvas
Após Fausto e sua ida, quem agora é Margarida?
Entre flores e punhal, entre as pernas da esposa de Menelau
Torto vai Fausto, títere tolo dos tolos
E certo como a chuva a terra lavra, o demônio cumpre sua
palavra
Só quando o dia cai, delirando volta ele à terra de seu pai
De mãos dadas, embriagado, vai ele e o diabo
Fedendo a pecado, Fausto recebe funesto recado
Para sua negra sorte, ouve sobre Margarida e sua morte
Por sua culpa ela foi ao presídio, enlouqueceu e amou o
suicídio
Ele chora, rasga, ora e arranha
Sangra fel amarelo e pragueja cada aranha
Síndrome de Romeu, pragueja Mefisto e o trato seu
Roga a todos anjos seus, roga por perdão e a mão de Deus
Mas a Virgem se cala, levanta um dedo e lhe veta a fala
Nem pacto nem pincel lhe abre agora a porta do céu
Sua alma Mefisto come e gosta, devora ele e sua aposta
- Hoje sou Fausto e meu canto é
Mefistófeles, meu sono é condenação e meu lápis é Walpurge...
Jan Santos
