quarta-feira, 28 de março de 2012

circunflexos V

Pensamentos de Veludo

Se ontem sonhava com valores que poderia ter
Hoje penso em bailes de máscara
No poder e na malícia da palavra
Nesse nosso jeito vogue de ser

Sorrisos falsos e abraços venenosos
Meninas lindas, de prostituta e batom
Meninos fortes, de soberba e moletom
Só atores, medíocres e fabulosos

Moços de anel com mulheres vulgares
Sussurrando prosas e brincando de sexo
Falando verdades e mentindo em anexo
Tudo em palcos estranhos e figurinos-Versalhes

Penso nisso e não me incomodo, ora
Saio e espero golden raindrops,
Ver minha cara no letreiro ou na capa da Forbes
Imaginando quem será o eu de agora

Um poeta em agonia?
Um mauricinho com ódio do calor?
Não, hoje vai ser filantropia

Sirvo caridade em pão e vinho
Acompanhamentos das charges do amor
E ao final de mais um dia, acabo sozinho

Logo, perdoe esse humilde menestrel
Só por curiosidade, caro ouvinte amador
Nesse dia, já interpretou seu papel?

                                                                                                        Jan Santos

domingo, 25 de março de 2012

circunflexos III

Engano Comum

No fim de tarde cinza, te vi chorando
As pessoas não paravam
Os anos te ignoravam
O mundo continuava girando

No entanto, eu te vi
Singela era tua inocência
Humilde era tua paciência
Tua dor virou minha ao invés de sumir

Foi esse o minuto da arrogância
Tal Deus te estendi a mão
Nojenta, mesquinha petulância

Foi quando entendi a situação
Se estavas sozinho, chorando
Era porque nem o mundo mais tolerava tua perversão
                                                                                                          Jan Santos

circunflexos IV

Ego

Tu não eras deus?
Pensaste isso e olha em volta
O que conseguiste?
Que tipo de deus foste tu?

Subjugado por laços de veludo
Humilhado por teu eu humano
Por ter aberto mão da divindade
Trouxe deus para a terra

A que vício te entregaste?
Pensa nisso e olha em volta
O que isso te deu?
Te agradaste com dor e morte?

Fruto da carne, humano ridículo
Abriste mão de tua alma
Por que esqueceste que tinhas um espírito?

“Onde jaz o tesouro jaz o coração”
Isso é conduta, não lei
Por que amas a decepção?

Por que o fez, nem hesitando?
Atirou-se ao céu e caiu na sombra
Não viste que eras apenas humano?
                                                                                                          Jan Santos

circunflexos II

Luto

“Ninguém te disse que ela não respirava?”
Ninguém é tão gentil

“Não sentiu o frio tomando conta?”
Não, só o calor indo embora

“E não tinha ninguém com você?”
Tinha a farsa que sobrou de ontem

Pode ser minha vez de perguntar?
“Sempre foi”

Dói tanto quanto parece?
“Até mais, só passa muito depois”

Se arrepende de algo?
“Não, o arrependimento é seu”

Vamos ser grossos agora?
“E por que eu haveria de ter piedade?”

“Você continua a reclamar por estar vivo”
Concordo, mas você também não se alegra por estar morta

                                                                                                              Jan Santos

sexta-feira, 16 de março de 2012

circunflexos I

De Orfeu aos serafins

De que útero nasceu
Tão sublime criatura
Tanto clara quanto escura
Que aos pés do céu morreu?

Pereceu em nove vidas
Pássaro de brasa
Que do fogo é feita a asa
Quantas foram as lutas perdidas?

Vidas várias e sem paz
Te consome na chama santa
Deita em tuas cinzas e levanta
Por que canta enquanto cais?

Porque tuas alegrias somem
E no entanto sobrevives
Tu és a alma do homem

É fogo, é força e é fúria
Pedra bruta dos ourives
Lapidada na moléstia e na penúria

Limitado pelo suplício, tu não és
Voa com o sol em tua cabeça
E a tempestade a teus pés

Esticai as asas pelo ar
Pois não ressuscitas para morrer
Mas morres para ressuscitar


                                                                     Jan Santos

lá e de volta outra vez...

"Escrever é deixar uma marca. É impor ao papel em branco sinal permanente, é capturar um instante em forma de palavra" - M. Artwood

"Não devemos parar de explorar. E o fim de toda nossa exploração será chegar ao ponto de partida e ver o lugar pela primeira vez" - T.S. Eliot


Foram essas as palavras a mim dirigidas quando o mundo pareceu um pedestal.