quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

X-pressão: E se Hobbes fosse asgardiano?


Dentre todos os filmes de super-heróis baseados em HQ’s, Os Vingadores (JossWhedon, 2012) é considerado pelo grande público como, talvez, o melhor deles. Seja pela ação, pela dinâmica ou por qualquer outra característica que se busca em um blockbuster, o filme também traz uma breve, porém interessante, reflexão filosófica. Loki, em minha opinião, muito bem interpretado por Tom Hiddleston, é o principal antagonista da trama, um deus asgardiano exilado por seus crimes contra Thor, seu irmão, e contra todo o reino de Asgard. Em sua primeira aparição no longa, o deus da mentira conversa com Nick Fury (Samuel L. Jackson), diretor da SHIELD, e têm um curioso diálogo:

Loki – Eu vim lhes oferecer um mundo livre.
Fury – Livre de quê?
Loki – De liberdade.


            Um mundo livre de liberdade, essa é a proposta de Loki. De acordo com ele, um mundo sem liberdade seria o sinônimo da verdadeira paz, pois não haveria as questões conflituosas que perturbam o coração humano quando a escolha lhe é apresentada. Sendo ele conhecido como o Trapaceiro, permanece a dúvida de que isso não passe de um argumento para justificar sua ambição pelo domínio e propósitos vingativos. Contudo, é algo a se levar em conta.
            O filósofo político Thomas Hobbes, em seu Leviatã, considera o homem essencialmente mau, movido unicamente por seus desejos, e por isso incapaz de viver harmoniosamente sem a existência de uma entidade que subjugue sua natureza. Portanto, defende a instituição de uma força maior, capaz de tomar para si as rédeas do poder e determinar todo um contexto social, econômico e político, criando assim um sistema organizado (tudo isso abstraído de uma simples aula de filosofia, sou um tanto leigo). É esse o ponto de consenso entre Hobbes e Loki: a humanidade não sabe lidar com sua liberdade por conta própria.
            Durante o filme, vemos Loki domar uma multidão aterrorizada, ordenando que se ajoelhem. Ao obedecerem, o Trapaceiro diz as palavras-chave de sua motivação: Viram? Não é mais simples? Não é esse o seu estado natural? Vocês foram feitos para ser governados. Antes em concordância, aqui, o deus e o filósofo parecem se desentender. Enquanto Hobbes descreve um homem selvagem, naturalmente egoísta, que depende do açoite da autoridade maior para sobreviver, Loki acredita que os humanos nasceram condicionados a aceitar o domínio. Em ambos os casos, a submissão é uma necessidade, mas movida por instintos diferentes. A despeito disso, Loki adoraria ser a serpente Leviatã descrita por Hobbes, a força que se põe acima dos demais e estabelece a ordem. Para tanto, o deus se utiliza tanto de artifícios como controle mental quanto das formas mais cruéis e aprazíveis de assassinato.
É até mesmo irônico perceber que, na apaixonada necessidade de se provar superior aos humanos, Loki se torna o que seria para Hobbes o mais selvagem deles. Uma personagem enigmática do filme caracteriza Loki como preenchido por sua ambição, ou seja, se coubesse a Thomas Hobbes julgar o direito de governar do deus das mentiras, ele talvez dissesse que não há como um homem em um estado tão primitivo se tornar uma força absoluta, um deus, de fato. Mesmo sendo uma divindade, seu instinto essencialmente humano o privaria de ascender como o verdadeiro governante de todos nós, tornando sua derrota inevitável.
Ainda que seja inadequado para sentar em um trono, Loki apresenta uma questão interessante: somos feitos para ser governados. Há quem diga que somos livres, mas no fim, não seremos livres apenas para escolher a melhor forma de sermos dominados? Isso não soa como a visão que andamos ignorando sobre democracia? É sempre mais fácil se ver livre da dúvida de uma escolha, do dever de ser responsável, delegando tal poder a outros. Loki é perverso, não devemos deixa-lo assumir os gabinetes, mas o fato é que há um gabinete a ser ocupado, e eventualmente, alguém o fará. O Leviatã precisa ser absoluto para governar, precisa ser insensível, e cabe à democracia eleger quem de nós é o mais adequado. Então, caro leitor, quem seria um Loki melhor?

Jan Santos

X – pressão: o homo superior e o homossexual

Por Jan Santos, publicado originalmente na segunda edição do jornal universitário Voz Ativa, do curso de Letras Língua e Literatura Portuguesa da Universidade Federal do Amazonas (UFAM)

Homossexualidade nunca foi um assunto fácil de discutir, sendo complexo até mesmo para as formas de expressão convencionais, como a literatura, devido à polêmica que norteia essa temática. De forma ousada e dinâmica, a arte dos quadrinhos, sob uma ótica não apenas literária, também se dedica a refletir sobre a questão da homossexualidade, um título merecendo destaque. X-men, criado por Stan Lee e Jack Kirby em 1963, da editora norte-americana Marvel Comics, é uma franquia que já há muito tempo foi classificada como uma celebração a tolerância e diversidade, e nesse contexto, a homossexualidade tem forte identificação.
O título nos apresenta aos mutantes, pessoas que nascem com dons sobre-humanos devido a particularidades genéticas, e que, por serem considerados como o próximo estágio da evolução humana (homo superior), são temidos e odiados pelos homo sapiens convencionais. O processo de mutação tem início na puberdade, manifestando-se de forma específica em cada indivíduo: alguns desenvolvem habilidades sutis, como telepatia e precognição, enquanto outros sofrem com transformações físicas severas, deixando a mutação mais evidente. O jovem mutante então passa a temer a si mesmo e a seus poderes, em dúvidas sobre como vai se encaixar em um mundo que não o aceita como pessoa.
Caso a analogia ainda não esteja clara, nota-se aí uma estreita relação entre o mutante e o homossexual. As duas “espécies” não partilham somente características como o medo do estigma social, a insegurança e a confusão em torno da aceitação própria, mas também um histórico longo de perseguição e preconceito. A incompreensão acompanha-as desde o seu surgimento, e não menos expressiva é sua repressão, seja por robôs sentinelas gigantes ou por intolerância violenta de uma sociedade tradicionalista. Ambas sofreram com a negação de seus direitos e de sua condição humana, com os severos ataques de natureza moral, com o alvo que a sociedade pôs em suas costas.
            O ativismo também lhes é uma característica comum. Como esperado de um fenômeno de ordem social, os homossexuais lutam por seu direito de existir, o que implica no surgimento de várias ideologias voltadas para as formas de aceitação, muitas vezes contrárias entre si. De um lado, há aqueles que acreditam em uma aceitação gradativa, na educação e na reavaliação de valores como ferramentas para esse fim. Do outro, indivíduos que não admitem a interação com uma sociedade que lhes é hostil, ou seja, não se permitem lidar com a intolerância, sendo intolerantes à sua própria maneira. Com os mutantes é parecido: há os pacifistas, como o telepata Charles Xavier e seus alunos, os X-men, e os extremistas, como Magneto e seus acólitos.
            No entanto, a homossexualidade não se liga a odisseia dos mutantes somente pelo contexto, mas pela representatividade que vem ganhando em suas páginas. Há personagens declaradamente homossexuais ou até mesmo bissexuais, como Estrela Polar, Anole e Mística (esta última até mesmo por conta da natureza andrógina de sus mutação), o que chama a atenção devido ao conservadorismo editorial sob o qual as revistas em quadrinhos são mantidas. Ousadia sempre foi uma das características da Marvel Comics, que soube retratar assuntos polêmicos em tempos em que os valores não eram tão flexíveis quanto são em nossos dias.

            Confrontando as ordens sociais e biológicas vigentes, os homossexuais e os mutantes são bons exemplos de diversidade social, uma forma de exercitar as limitações da perspectiva geral. Bem mais que isso, são uma grande esperança para a voz reprimida, quase marginalizada, que em tempo algum deve cair diante da falta de liberdade de expressão, da negação de representatividade. Nada mais fazem do que exigir a própria existência, do que sugerir mobilidade para as mentes estagnadas, do que esclarecer que não nasceram para ser heróis ou vilões, mas simplesmente pessoas.

domingo, 6 de janeiro de 2013

A Sereia de Pigmalião



Será a mais bela.
Dizia o artista para si mesmo, todos os dias. Dizia para o vento, dizia para a água, para os deuses, e dizia para o grande bloco de mármore.
As outras têm falhas. Será a mais bela.
      As meretrizes fediam a pecado, as senhoras casadas, a dissimulação. As donzelas fingiam inocência e as anciãs confundiam sabedoria com fofocas.
            Mas você não. Será perfeita.
           Quando se cansou das fêmeas artificiais que era obrigado a aturar todos os dias, o artista foi ao ermo, para as terras esquecidas que pertenciam aos tios. Em meio a tantos gracejos, falsidades e luxúria, não poderia enxergar a Musa, tampouco a alma que ela escondia. Haviam-se passado meses desde que produzira algo; a febre da criação é a verdadeira amante dos artistas, sua falta é a verdadeira doença. A febre é sua saúde.
            Na cabana, longe dos sussurros e gritos da cidade, ele pôde ouvi-la melhor, ao silêncio também, mas quis mais. Queria vê-la. Seus contornos e seios, ancas e tornozelos, os olhos de ouro e entre as coxas o tesouro. Inspirou-se na inspiração, e a febre tomou-o como lepra. Caíam-lhe a vaidade e o medo, junto com o pudor. Cada martelada no cinzel soava como nota aguda de coito, uma música sensualmente indecente, e o artista esquecia-se do mundo.
            Quando a pedra mostrava-se rígida às estocadas de suas ferramentas, o artista sabia que sua Musa não estava satisfeita. Ele se recolhia a um canto e esperava, só esperava, até que a moça sem forma acalmasse os humores. Magoava-o profundamente vê-la daquele jeito, insatisfeita com a vida que ganhava.
            Também não estaria satisfeito se vivesse algemado.
            E assim, seus esforços dobraram, dominado pelo desejo de libertá-la da rocha, lasca por lasca, sentindo que ela sorria a cada golpe, toda vez que o cinzel e o martelo cantavam e a faziam gemer. O artista podia sentir-lhe o calor, o prazer, o membro enrijecer conforme lhe esculpia a virilha e o que vinha depois. Desejava-a, mas ela ainda estava presa demais à rocha.
            Nem a fome ou a sede afastavam-no de sua Musa. A pele era nada mais que couro pálido sobre os ossos, estendida de modo a imitar o homem que um dia foi o artista. As curvas da Musa se definiam enquanto as dele endureciam e grudavam-se às costelas. Ela ganhava vida, podia ver, podia sentir, a cada dia, mais e mais e mais e mais ainda, até que, quando os pés enfim estivessem livres, ela poderia se erguer. E dançar, seria maravilhoso se pudesse dançar. Poderiam dançar juntos, não naqueles bailes em que as fêmeas se empavonavam e mentiam, mas sob a lua e as estrelas, sobre grama e orvalho, à vista do olho dos deuses, banhados pela noite e pelo vinho.
            E lhe farei um filho.
            Chamava-se Galatea. Sabia que era esse o nome, pois ela tinha dito entre sussurros abafados e febris da noite anterior. Disse o quanto ansiava por abraçá-lo, por dançar entre suas linhas, por sentir-lhe de novo as punhaladas do cinzel. E o artista se pôs a trabalhar como louco, lobo alucinado de fome que precisa quebrar os ossos de um animal qualquer antes de lhes sugar o tutano. E quebrou a pedra para lhe sugar o seio, ouvindo os uivos tímidos a cada martelada, e não foram poucas.
            Os uivos cessaram, tão súbitos quanto vieram, e uma leve camada de suor e pó separava-lhes a pele. O delírio ofegante durou pouco; logo o artista percebeu, para sua tristeza, que Galatea, mesmo depois de pronta, ainda era mármore, linda e gelada. A voz ainda era baixa demais para ser uma voz, baixa como o som que fazem as raízes dos montes aose espalhar pela terra, uma voz de estátua.
            Por quê?
            Ela respondia com risos.
            De novo, era dura como pedra. Os seios afiados provocavam-no, enquanto uma das mãos escondia o triângulo enfeitiçado. Galatea é cruel, inflexível, e parecia divertir-se mais com o cinzel. Ele a amava, enquanto ela amava a si mesma.
            Por quê?
            Ela estava livre, mas recusava-se a tirar o mármore de cima da carne. O artista compreendeu que não a teria mais do que já teve, nem Afrodite esquentaria aquele coração tão duro. Ele costumava beijá-la, tocá-la, dar-lhe prazer, mas tudo o que Galatea fez foi usá-lo. Não era uma meretriz, mas uma megera. Os olhos cinzentos zombavam dele, de seu coração mole e adocicado. Fraco, ele ouvia, fraco e fraco mais uma vez. Risos de escárnio assobiavam com o vento, tão frios e cheios de crueldade quanto os beijos que não dava.
            As preces do artista foram atendidas de modo cruel, ossos do ofício. Pediu um corpo para sua Musa, sua Galatea, e os deuses deram-lhe pedra. Rezou por amor, e os deuses deram-lhe uma chaga no peito, uma mácula na alma. Galatea sequer fazia o esforço de tocá-lo, sempre rindo de seu sofrimento.
            - Galatea, oh cruel Galatea! Da rocha dura e fria moldaram-te os deuses, agora o céu ri de mim, seu espetáculo de palco. Já não encontro morte suficiente no passar dos anos, também a encontro nos lábios de Galatea?
            Os deuses impediram-no de ter amor, sempre o fizeram, mas não de ter um martelo em suas mãos. Em seus lábios, Galatea também encontraria morte.
            Tempos depois, as pessoas começaram a questionar o que teria acontecido ao jovem Pigmalião. Não o viam mais presenteando reis e rainhas com suas obras, nem ensinando ladrões e ciganos os caminhos de sua arte. Tão desejoso de agradar, tão ávido por um elogio, tão morto atrás de um sorriso de mármore.
            Seus irmãos procuraram-no na casinha gasta perto do lago, certos de que estava bêbado sobre pilhas de belos cascalhos e membros de pedra. Na pequena cabana, no entanto, ele estava bêbado com outras coisas. Ébrio de umidade, ébrio de mofo e poeira, e ébrio com um beijo. À meia luz que se derramava pelo teto em putrefação, viram mais uma das obras do irmão mais jovem.
            Uma escultura dele mesmo, esculpido em mármore branco mal acabado, contorcendo-se entre os braços de uma mulher toda fúria, volúpia e alegria. Preso em suas curvas, de martelo na mão e lábios ocupados, parecia quase feliz.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Não há flores na neve



Antes de ir embora, Serafina avisou-a do que poderia acontecer. Uma pena que não tenha dado tanta atenção. Agora, há escombros nas entradas, cristais de poeira e gelo no ar e desespero em seu coração. O inimigo a espreita, ela pode sentir o cheiro do sangue, pode sentir o toque de seus últimos minutos. Logo estará morta.
            A missão de Melia era simples. Deveria escoltar Páris, filho do senhor Siegfried e herdeiro da Fortaleza Elien, em sigilo através da costa norte de Esmirna até as praias congeladas de Éfeso. A escolta era pequena, hábil, composta pro três dos melhores assassinos do senhor de Elien e dois chacais, mercenários contratados, além da própria Melia, capitão a serviço do príncipe.
            Desde que puxou o menino de dentro da Senhora de Elien, era seu dever protegê-lo. Teria morrido de bom grado por seu jovem senhor, mas as flechas caíram rápido, os inimigos eram muitos. Teria morrido de bom grado por seu jovem senhor, mas o medo tomou o lugar da honra quando os íncubos, soldados de Valhala, saíram da água e se aproximaram por trás.
            Não houve lugar aonde pudessem se esconder no porto. Melia e o último chacal abriram caminho entre os soldados negros, sob chuva de espadas e cimitarras, até um dos armazéns que se agarravam às rochas. As paredes de metal e rocha garantiriam algum tempo, minutos preciosos que talvez, só talvez, gerariam um plano.
            Os íncubos não tinham intenção de dar esse tempo. A tranca não aguentou mais que segundos, e tudo o que Melia conseguiu fazer foi ler. “Pólvora”, escrito em vários barris pelo armazém. “Pólvora”, “pólvora”, “pólvora”. Ela não via íncubos, nem seu príncipe ou o mercenário, só as letras em tinta verde. Seu pensamento seguinte foi “fogo”.
            E fogo ela atirou sobre os barris. Lascas de tocha trazia na bagagem, e acendê-las foi rápido. Rápido como as luzes e explosões que vieram em seguida. Fogo e luzes de muitas cores brotavam de cada recipiente, espalhando-se pelas paredes e teto, pelas caixas e íncubos. Madeira e aço rangiam e partiam, cantando a música da ruína. E depois nada, nada além de um branco puro, gelado.
            O único calor que sentia eram as queimaduras nas costas. O busto, os braços as pernas... todos anestesiados. A neve a abraça cruelmente, entre dentes de pedra e agulhas de pinheiro. Não havia príncipe, não havia mercenário nem íncubo, só uma figura alta, esguia, coberta de ametista, a fitá-la por detrás das chamas agitadas.
            Sangue lhe cobria o rosto, farpas de madeira se enterravam em seu braço, mas nada disso a impediu de correr o máximo que podia. Ele era pior do que queimaduras e cortes, do que íncubos e medo. A espada que não encontrava nem a adaga presa na greva não seriam de grande ajuda, tampouco a culpa em não defender seu senhor ou o remorso em deixá-lo para trás.
            Corria como se os chicotes de Zeus estalassem às suas costas. Deu graças a todos os deuses quando viu as ruínas do pequeno templo de Nereu, divindade marinha, e se embrenhou entre pau, pedra e pó. O choro não fazia barulho, mas o medo exalava um fedor de cadáver, tão nauseabundo e fascinante que aquele homem... aquele monstro... sentiria de muito longe.
            Antes de ir embora, Serafina avisou-a do que poderia acontecer. Uma pena que não tenha dado alguma atenção. O demônio se aproximava sem aviso, ela sabia, sabia e não faria nada. Logo estará morta.
            Horas se passavam a cada segundo, trazendo à sua garganta uma mistura ácida de vômito e medo. O completo silêncio lhe dava alguma esperança, mas também a envenenava com ansiedade. Esperava um baque nas portas destruídas, uma mão rígida em seu ombro, ou quem sabe um machado em seu pescoço, piedoso em lhe dar uma morte ágil.
            Nada disso aconteceu.
            Um lamento baixo foi o que lhe veio aos ouvidos. Um gemido cansado, choroso, derrotado. O coração derreteu com a voz de seu príncipe, seu garotinho, clamando por ajuda, sem qualquer vida no chamado fraco. Melia deixou o esconderijo, radiante pela chance de manter sua vida e sua honra. Abraçando o corpo ferido de seu jovem e abatido mestre, ela mal notou a mão de ametista fechando-se em seu pescoço, sufocando-a. Não era seu mestre, afinal. Era Mefisto, a Besta dos Vários Rostos.
            Antes de ir embora, Serafina avisou-a do que poderia acontecer. Uma pena que não tenha dado atenção alguma. No fundo, ela sabia que seria assim, como sugeriu o demônio aos seus ouvidos. Logo estará morta.
Retirado de “Evangeline – Contos lembrados por ninguém

domingo, 14 de outubro de 2012

Em cima da colina


              Nunca tinha visto tantos soldados antes. Meu pai sempre contou histórias sobre o Exército Vermelho, mas vê-los ali, marchando ao pé do vilarejo, tão perto que meus ouvidos doíam com cada passada, foi mais do que eu esperava ver.
            Fomos instruídos por nosso Ancião a não tomar parte naqueles jogos de sangue. Vemos sangue todos os dias, dizia ele, mas não me parece certo ficar de braços cruzados enquanto aqueles golpes de espada moldam o mundo. Vejo a alvorada no Leste, vejo a Lua Negra no Oeste, e me limito a isso, a ver?
            Valhala, o Castelo Assombrado, sempre me perturbou, mas nossas terras nunca padeceram. Claro, o ar é frio demais para se plantar algumas coisas e temos mais saqueadores do que gostaríamos, mas exigir que nosso governo mude o clima ou a natureza dos homens é um pouco demais. Azazel, a Serpente Alada, poderia ajudar com o frio, mas ele não está entre as fileiras de Valhala. Temos Lilith, a Rainha, e não há porque chamar seu mando de tirânico.
            Por outro lado, a Aliança dos Reis e seus sacramentais nos trouxeram luz, nos trouxeram a graça da manhã, nos trouxeram a herança do Empíreo direto das lendas. É curiosa a alegria em ver a maravilha dourada no Leste, lembrando-nos que já tivemos dias melhores. Contudo, seja a Ditadura ou a Aliança, nenhum deles pôs pão em nossa mesa ou fogo em nossas lareiras. Estão muito preocupados com suas cruzadas pelo poder.
            O relinchar de hipólitos e lâminas chamou minha atenção para os cavaleiros. O de armadura negra lembrava as histórias que ouvimos sobre o Mentalista de Ônix, capaz de ler mentes e matar só com o pensamento. Os gêmeos Hasten já nos são conhecidos, abateram grandes alces para nós semanas antes, com aquelas setas fulgurosas, como uma oferta de paz e garantia da travessia deles. A terrível Illyana, com sua arma de três dentes, acompanhava um rapaz enorme, com músculos de pedra.
            Reconhecer o famoso Mago Vermelho foi o mais fácil, pois não havia outro ancião na comitiva. Uma guerreira linda cavalgava ao seu lado, cujo escudo trazia esculpido o rosto da górgona medonha. Um rapaz pouco mais novo que ela sumia e tornava a aparecer ao seu redor, talvez para diverti-la. Meus amigos o chamavam de Espectro, mas um garoto não assusta muito.
            Eram todos senhores de poderes terríveis e armas perigosas, cujas trombetas anunciavam morte e as montarias traziam guerra para nosso povo.
            Lilith não tardou a responder à marcha inimiga, bem antes do que esperávamos. Nuvens negras, vivas demais para serem apenas nuvens, mergulharam a todos eles em uma luta vã contra o ar. Só depois notei que eram os corvos da terra dos medas, predadores cruéis que preferiam carne fresca a dos mortos. Há séculos deixaram de ser carniceiros.
            Aquela tropa não teria resistido muito tempo não fosse as chamas que surgiram do nada, sob ordens da única em Hélade que ainda tem sangue divino. A Jovem Héstia não perdoou nenhum dos pássaros homicidas, incendiando-os com as flamas que a deusa lhe concedeu. A chuva de fogo foi a coisa mais impressionante que eu vi na vida, com os corvos servindo de pequenas estrelas cadentes que se tornavam negras ao atingir a brancura da neve.
            Aquelas pessoas... admiro-as, temo-as. Eles nos trouxeram luz, nos trouxeram guerra, nos trouxeram escolhas amargas. A Rainha Lilith quer destruí-los, eles querem destroná-la, mas ninguém nunca nos perguntou o que queríamos.
Retirado de Evangeline – Contos lembrados por ninguém

segunda-feira, 9 de julho de 2012

As crias de Walpurge

Ele que ama, com o peito em chama
Na mão tinta, com a ambição pinta
De oferendas os resquícios, mil prendas e feitiços
Ao escuro clama sobre o duro pentagrama

O riso do condenado no piso adornado
Rugido do leão e do ferido furacão
Das hordas de satã com o cheiro de cortesã
Dos demônios do pasto, cuidado! Oh, pobre Fausto!

Palavra dita na encruzilhada maldita
Teu desejo implora pelo diabo de fora
Quer ser Ouvídio, Arquimedes ou Virgílio
Invejando Aristóteles, invoca Mefistófeles!

Sem luz no demônio de olhos azuis
Que te oferece poder e te proíbe morrer
Vê teu intento, que desejas conhecimento
Te abraça e seduz, convence, engana e livra da cruz

Sábio é Fausto, mas não é cauto
Sangue ao caído dá, e é ungido, benzido com incenso e luar
Trato feito, sorriso no rosto sem remorso no peito
E se torna vasto o olho de Fausto

Dominou filosofia, ocultismo e alquimia
Seis anéis no dedo e preto é o gato do mago
Mas nem a astúcia de Mefisto ou a malícia de Egisto
Nem clareza ou rancor pode lhe pôr distante do amor

Lá formosa Margarida, a viçosa de sua vida
Tão doce e tão pura, faca em sua alma escura
Alegra dança, canta e ao feiticeiro alcança
Loira, linda, leve, livre

Doía ela como cisto no velho Mefisto
Que de Margarida fez flor desflorida
Vil injúria, através de Fausto e luxúria
Estupra, e doce vira lenta, lerda, destruída

“Largue dela e se vier, dar-te-ei a mulher que quiser”
Fala o demônio, e pondo a jovem no manicômio
Ao mago traz, que sem saber o mal que faz
Atende ao fogo e o tempo urge, chegam ambos a Walpurge

A orgia das bruxas na casa das chuvas
Com vários deuses e ninfas de Eleusis
Desfilam as fadas perversas e os duendes às avessas
E no silêncio sublime e luz plena, surge a divina Helena

Sim, no céu se apoia a Ruína de Troia
Com seio de fora, entre o antes e o agora
Na luz da fogueira, entre os corvos se esgueira
Embosca o mago com suas curvas, com macio afago e palavras turvas

Após Fausto e sua ida, quem agora é Margarida?
Entre flores e punhal, entre as pernas da esposa de Menelau
Torto vai Fausto, títere tolo dos tolos
E certo como a chuva a terra lavra, o demônio cumpre sua palavra

Só quando o dia cai, delirando volta ele à terra de seu pai
De mãos dadas, embriagado, vai ele e o diabo
Fedendo a pecado, Fausto recebe funesto recado
Para sua negra sorte, ouve sobre Margarida e sua morte

Por sua culpa ela foi ao presídio, enlouqueceu e amou o suicídio
Ele chora, rasga, ora e arranha
Sangra fel amarelo e pragueja cada aranha
Síndrome de Romeu, pragueja Mefisto e o trato seu

Roga a todos anjos seus, roga por perdão e a mão de Deus
Mas a Virgem se cala, levanta um dedo e lhe veta a fala
Nem pacto nem pincel lhe abre agora a porta do céu
Sua alma Mefisto come e gosta, devora ele e sua aposta

- Hoje sou Fausto e meu canto é Mefistófeles, meu sono é condenação e meu lápis é Walpurge...

Jan Santos

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Confissão

Sim, eu sou um mutante, e tudo o que eu mais gostaria é de poder interagir em paz com os humanos. Há aqueles que temem e odeiam a minha espécie, mas não tenho culpa, é como nascer branco ou negro. Sinto inveja dos sapiens comuns, eles podem andar sob o sol ou sob a lua sem nenhum tipo de perseguição, enquanto nós, os mutantes, sentimos receio de como os demais entenderiam o nosso ponto de vista ou nossas práticas, mas esse mundo é tão nosso quanto de qualquer outro.

Sim, eu sou um mutante, uma inversão da ordem natural. Mas eu vim pra ficar.