Nunca tinha visto tantos soldados antes. Meu pai sempre
contou histórias sobre o Exército Vermelho, mas vê-los ali, marchando ao pé do
vilarejo, tão perto que meus ouvidos doíam com cada passada, foi mais do que eu
esperava ver.
Fomos instruídos por nosso Ancião a
não tomar parte naqueles jogos de sangue. Vemos
sangue todos os dias, dizia ele, mas não me parece certo ficar de braços
cruzados enquanto aqueles golpes de espada moldam o mundo. Vejo a alvorada no
Leste, vejo a Lua Negra no Oeste, e me limito a isso, a ver?
Valhala, o Castelo Assombrado,
sempre me perturbou, mas nossas terras nunca padeceram. Claro, o ar é frio
demais para se plantar algumas coisas e temos mais saqueadores do que
gostaríamos, mas exigir que nosso governo mude o clima ou a natureza dos homens
é um pouco demais. Azazel, a Serpente Alada, poderia ajudar com o frio, mas ele
não está entre as fileiras de Valhala. Temos Lilith, a Rainha, e não há porque
chamar seu mando de tirânico.
Por outro lado, a Aliança dos Reis e
seus sacramentais nos trouxeram luz, nos trouxeram a graça da manhã, nos
trouxeram a herança do Empíreo direto das lendas. É curiosa a alegria em ver a
maravilha dourada no Leste, lembrando-nos que já tivemos dias melhores.
Contudo, seja a Ditadura ou a Aliança, nenhum deles pôs pão em nossa mesa ou
fogo em nossas lareiras. Estão muito preocupados com suas cruzadas pelo poder.
O
relinchar de hipólitos e lâminas chamou minha atenção para os cavaleiros. O de
armadura negra lembrava as histórias que ouvimos sobre o Mentalista de Ônix,
capaz de ler mentes e matar só com o pensamento. Os gêmeos Hasten já nos são
conhecidos, abateram grandes alces para nós semanas antes, com aquelas setas
fulgurosas, como uma oferta de paz e garantia da travessia deles. A terrível
Illyana, com sua arma de três dentes, acompanhava um rapaz enorme, com músculos
de pedra.
Reconhecer o famoso Mago Vermelho
foi o mais fácil, pois não havia outro ancião na comitiva. Uma guerreira linda
cavalgava ao seu lado, cujo escudo trazia esculpido o rosto da górgona medonha.
Um rapaz pouco mais novo que ela sumia e tornava a aparecer ao seu redor,
talvez para diverti-la. Meus amigos o chamavam de Espectro, mas um garoto não
assusta muito.
Eram todos senhores de poderes
terríveis e armas perigosas, cujas trombetas anunciavam morte e as montarias
traziam guerra para nosso povo.
Lilith não tardou a responder à
marcha inimiga, bem antes do que esperávamos. Nuvens negras, vivas demais para
serem apenas nuvens, mergulharam a todos eles em uma luta vã contra o ar. Só
depois notei que eram os corvos da terra dos medas, predadores cruéis que
preferiam carne fresca a dos mortos. Há séculos deixaram de ser carniceiros.
Aquela tropa não teria resistido
muito tempo não fosse as chamas que surgiram do nada, sob ordens da única em
Hélade que ainda tem sangue divino. A Jovem Héstia não perdoou nenhum dos
pássaros homicidas, incendiando-os com as flamas que a deusa lhe concedeu. A
chuva de fogo foi a coisa mais impressionante que eu vi na vida, com os corvos
servindo de pequenas estrelas cadentes que se tornavam negras ao atingir a
brancura da neve.
Aquelas pessoas... admiro-as, temo-as.
Eles nos trouxeram luz, nos trouxeram guerra, nos trouxeram escolhas amargas. A
Rainha Lilith quer destruí-los, eles querem destroná-la, mas ninguém nunca nos
perguntou o que queríamos.
Retirado de “Evangeline – Contos lembrados por ninguém”
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