quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

X-pressão: E se Hobbes fosse asgardiano?


Dentre todos os filmes de super-heróis baseados em HQ’s, Os Vingadores (JossWhedon, 2012) é considerado pelo grande público como, talvez, o melhor deles. Seja pela ação, pela dinâmica ou por qualquer outra característica que se busca em um blockbuster, o filme também traz uma breve, porém interessante, reflexão filosófica. Loki, em minha opinião, muito bem interpretado por Tom Hiddleston, é o principal antagonista da trama, um deus asgardiano exilado por seus crimes contra Thor, seu irmão, e contra todo o reino de Asgard. Em sua primeira aparição no longa, o deus da mentira conversa com Nick Fury (Samuel L. Jackson), diretor da SHIELD, e têm um curioso diálogo:

Loki – Eu vim lhes oferecer um mundo livre.
Fury – Livre de quê?
Loki – De liberdade.


            Um mundo livre de liberdade, essa é a proposta de Loki. De acordo com ele, um mundo sem liberdade seria o sinônimo da verdadeira paz, pois não haveria as questões conflituosas que perturbam o coração humano quando a escolha lhe é apresentada. Sendo ele conhecido como o Trapaceiro, permanece a dúvida de que isso não passe de um argumento para justificar sua ambição pelo domínio e propósitos vingativos. Contudo, é algo a se levar em conta.
            O filósofo político Thomas Hobbes, em seu Leviatã, considera o homem essencialmente mau, movido unicamente por seus desejos, e por isso incapaz de viver harmoniosamente sem a existência de uma entidade que subjugue sua natureza. Portanto, defende a instituição de uma força maior, capaz de tomar para si as rédeas do poder e determinar todo um contexto social, econômico e político, criando assim um sistema organizado (tudo isso abstraído de uma simples aula de filosofia, sou um tanto leigo). É esse o ponto de consenso entre Hobbes e Loki: a humanidade não sabe lidar com sua liberdade por conta própria.
            Durante o filme, vemos Loki domar uma multidão aterrorizada, ordenando que se ajoelhem. Ao obedecerem, o Trapaceiro diz as palavras-chave de sua motivação: Viram? Não é mais simples? Não é esse o seu estado natural? Vocês foram feitos para ser governados. Antes em concordância, aqui, o deus e o filósofo parecem se desentender. Enquanto Hobbes descreve um homem selvagem, naturalmente egoísta, que depende do açoite da autoridade maior para sobreviver, Loki acredita que os humanos nasceram condicionados a aceitar o domínio. Em ambos os casos, a submissão é uma necessidade, mas movida por instintos diferentes. A despeito disso, Loki adoraria ser a serpente Leviatã descrita por Hobbes, a força que se põe acima dos demais e estabelece a ordem. Para tanto, o deus se utiliza tanto de artifícios como controle mental quanto das formas mais cruéis e aprazíveis de assassinato.
É até mesmo irônico perceber que, na apaixonada necessidade de se provar superior aos humanos, Loki se torna o que seria para Hobbes o mais selvagem deles. Uma personagem enigmática do filme caracteriza Loki como preenchido por sua ambição, ou seja, se coubesse a Thomas Hobbes julgar o direito de governar do deus das mentiras, ele talvez dissesse que não há como um homem em um estado tão primitivo se tornar uma força absoluta, um deus, de fato. Mesmo sendo uma divindade, seu instinto essencialmente humano o privaria de ascender como o verdadeiro governante de todos nós, tornando sua derrota inevitável.
Ainda que seja inadequado para sentar em um trono, Loki apresenta uma questão interessante: somos feitos para ser governados. Há quem diga que somos livres, mas no fim, não seremos livres apenas para escolher a melhor forma de sermos dominados? Isso não soa como a visão que andamos ignorando sobre democracia? É sempre mais fácil se ver livre da dúvida de uma escolha, do dever de ser responsável, delegando tal poder a outros. Loki é perverso, não devemos deixa-lo assumir os gabinetes, mas o fato é que há um gabinete a ser ocupado, e eventualmente, alguém o fará. O Leviatã precisa ser absoluto para governar, precisa ser insensível, e cabe à democracia eleger quem de nós é o mais adequado. Então, caro leitor, quem seria um Loki melhor?

Jan Santos

X – pressão: o homo superior e o homossexual

Por Jan Santos, publicado originalmente na segunda edição do jornal universitário Voz Ativa, do curso de Letras Língua e Literatura Portuguesa da Universidade Federal do Amazonas (UFAM)

Homossexualidade nunca foi um assunto fácil de discutir, sendo complexo até mesmo para as formas de expressão convencionais, como a literatura, devido à polêmica que norteia essa temática. De forma ousada e dinâmica, a arte dos quadrinhos, sob uma ótica não apenas literária, também se dedica a refletir sobre a questão da homossexualidade, um título merecendo destaque. X-men, criado por Stan Lee e Jack Kirby em 1963, da editora norte-americana Marvel Comics, é uma franquia que já há muito tempo foi classificada como uma celebração a tolerância e diversidade, e nesse contexto, a homossexualidade tem forte identificação.
O título nos apresenta aos mutantes, pessoas que nascem com dons sobre-humanos devido a particularidades genéticas, e que, por serem considerados como o próximo estágio da evolução humana (homo superior), são temidos e odiados pelos homo sapiens convencionais. O processo de mutação tem início na puberdade, manifestando-se de forma específica em cada indivíduo: alguns desenvolvem habilidades sutis, como telepatia e precognição, enquanto outros sofrem com transformações físicas severas, deixando a mutação mais evidente. O jovem mutante então passa a temer a si mesmo e a seus poderes, em dúvidas sobre como vai se encaixar em um mundo que não o aceita como pessoa.
Caso a analogia ainda não esteja clara, nota-se aí uma estreita relação entre o mutante e o homossexual. As duas “espécies” não partilham somente características como o medo do estigma social, a insegurança e a confusão em torno da aceitação própria, mas também um histórico longo de perseguição e preconceito. A incompreensão acompanha-as desde o seu surgimento, e não menos expressiva é sua repressão, seja por robôs sentinelas gigantes ou por intolerância violenta de uma sociedade tradicionalista. Ambas sofreram com a negação de seus direitos e de sua condição humana, com os severos ataques de natureza moral, com o alvo que a sociedade pôs em suas costas.
            O ativismo também lhes é uma característica comum. Como esperado de um fenômeno de ordem social, os homossexuais lutam por seu direito de existir, o que implica no surgimento de várias ideologias voltadas para as formas de aceitação, muitas vezes contrárias entre si. De um lado, há aqueles que acreditam em uma aceitação gradativa, na educação e na reavaliação de valores como ferramentas para esse fim. Do outro, indivíduos que não admitem a interação com uma sociedade que lhes é hostil, ou seja, não se permitem lidar com a intolerância, sendo intolerantes à sua própria maneira. Com os mutantes é parecido: há os pacifistas, como o telepata Charles Xavier e seus alunos, os X-men, e os extremistas, como Magneto e seus acólitos.
            No entanto, a homossexualidade não se liga a odisseia dos mutantes somente pelo contexto, mas pela representatividade que vem ganhando em suas páginas. Há personagens declaradamente homossexuais ou até mesmo bissexuais, como Estrela Polar, Anole e Mística (esta última até mesmo por conta da natureza andrógina de sus mutação), o que chama a atenção devido ao conservadorismo editorial sob o qual as revistas em quadrinhos são mantidas. Ousadia sempre foi uma das características da Marvel Comics, que soube retratar assuntos polêmicos em tempos em que os valores não eram tão flexíveis quanto são em nossos dias.

            Confrontando as ordens sociais e biológicas vigentes, os homossexuais e os mutantes são bons exemplos de diversidade social, uma forma de exercitar as limitações da perspectiva geral. Bem mais que isso, são uma grande esperança para a voz reprimida, quase marginalizada, que em tempo algum deve cair diante da falta de liberdade de expressão, da negação de representatividade. Nada mais fazem do que exigir a própria existência, do que sugerir mobilidade para as mentes estagnadas, do que esclarecer que não nasceram para ser heróis ou vilões, mas simplesmente pessoas.