quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

X – pressão: o homo superior e o homossexual

Por Jan Santos, publicado originalmente na segunda edição do jornal universitário Voz Ativa, do curso de Letras Língua e Literatura Portuguesa da Universidade Federal do Amazonas (UFAM)

Homossexualidade nunca foi um assunto fácil de discutir, sendo complexo até mesmo para as formas de expressão convencionais, como a literatura, devido à polêmica que norteia essa temática. De forma ousada e dinâmica, a arte dos quadrinhos, sob uma ótica não apenas literária, também se dedica a refletir sobre a questão da homossexualidade, um título merecendo destaque. X-men, criado por Stan Lee e Jack Kirby em 1963, da editora norte-americana Marvel Comics, é uma franquia que já há muito tempo foi classificada como uma celebração a tolerância e diversidade, e nesse contexto, a homossexualidade tem forte identificação.
O título nos apresenta aos mutantes, pessoas que nascem com dons sobre-humanos devido a particularidades genéticas, e que, por serem considerados como o próximo estágio da evolução humana (homo superior), são temidos e odiados pelos homo sapiens convencionais. O processo de mutação tem início na puberdade, manifestando-se de forma específica em cada indivíduo: alguns desenvolvem habilidades sutis, como telepatia e precognição, enquanto outros sofrem com transformações físicas severas, deixando a mutação mais evidente. O jovem mutante então passa a temer a si mesmo e a seus poderes, em dúvidas sobre como vai se encaixar em um mundo que não o aceita como pessoa.
Caso a analogia ainda não esteja clara, nota-se aí uma estreita relação entre o mutante e o homossexual. As duas “espécies” não partilham somente características como o medo do estigma social, a insegurança e a confusão em torno da aceitação própria, mas também um histórico longo de perseguição e preconceito. A incompreensão acompanha-as desde o seu surgimento, e não menos expressiva é sua repressão, seja por robôs sentinelas gigantes ou por intolerância violenta de uma sociedade tradicionalista. Ambas sofreram com a negação de seus direitos e de sua condição humana, com os severos ataques de natureza moral, com o alvo que a sociedade pôs em suas costas.
            O ativismo também lhes é uma característica comum. Como esperado de um fenômeno de ordem social, os homossexuais lutam por seu direito de existir, o que implica no surgimento de várias ideologias voltadas para as formas de aceitação, muitas vezes contrárias entre si. De um lado, há aqueles que acreditam em uma aceitação gradativa, na educação e na reavaliação de valores como ferramentas para esse fim. Do outro, indivíduos que não admitem a interação com uma sociedade que lhes é hostil, ou seja, não se permitem lidar com a intolerância, sendo intolerantes à sua própria maneira. Com os mutantes é parecido: há os pacifistas, como o telepata Charles Xavier e seus alunos, os X-men, e os extremistas, como Magneto e seus acólitos.
            No entanto, a homossexualidade não se liga a odisseia dos mutantes somente pelo contexto, mas pela representatividade que vem ganhando em suas páginas. Há personagens declaradamente homossexuais ou até mesmo bissexuais, como Estrela Polar, Anole e Mística (esta última até mesmo por conta da natureza andrógina de sus mutação), o que chama a atenção devido ao conservadorismo editorial sob o qual as revistas em quadrinhos são mantidas. Ousadia sempre foi uma das características da Marvel Comics, que soube retratar assuntos polêmicos em tempos em que os valores não eram tão flexíveis quanto são em nossos dias.

            Confrontando as ordens sociais e biológicas vigentes, os homossexuais e os mutantes são bons exemplos de diversidade social, uma forma de exercitar as limitações da perspectiva geral. Bem mais que isso, são uma grande esperança para a voz reprimida, quase marginalizada, que em tempo algum deve cair diante da falta de liberdade de expressão, da negação de representatividade. Nada mais fazem do que exigir a própria existência, do que sugerir mobilidade para as mentes estagnadas, do que esclarecer que não nasceram para ser heróis ou vilões, mas simplesmente pessoas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário