Por Jan Santos, publicado
originalmente na segunda edição do jornal universitário Voz Ativa, do curso de
Letras Língua e Literatura Portuguesa da Universidade Federal do Amazonas (UFAM)
Homossexualidade
nunca foi um assunto fácil de discutir, sendo complexo até mesmo para as formas
de expressão convencionais, como a literatura, devido à polêmica que norteia
essa temática. De forma ousada e dinâmica, a arte dos quadrinhos, sob uma ótica
não apenas literária, também se dedica a refletir sobre a questão da
homossexualidade, um título merecendo destaque. X-men, criado por Stan Lee e
Jack Kirby em 1963, da editora norte-americana Marvel Comics, é uma franquia
que já há muito tempo foi classificada como uma celebração a tolerância e
diversidade, e nesse contexto, a homossexualidade tem forte identificação.
O
título nos apresenta aos mutantes, pessoas que nascem com dons sobre-humanos
devido a particularidades genéticas, e que, por serem considerados como o
próximo estágio da evolução humana (homo superior), são temidos e odiados pelos
homo sapiens convencionais. O processo de mutação tem início na puberdade,
manifestando-se de forma específica em cada indivíduo: alguns desenvolvem
habilidades sutis, como telepatia e precognição, enquanto outros sofrem com
transformações físicas severas, deixando a mutação mais evidente. O jovem
mutante então passa a temer a si mesmo e a seus poderes, em dúvidas sobre como
vai se encaixar em um mundo que não o aceita como pessoa.
Caso
a analogia ainda não esteja clara, nota-se aí uma estreita relação entre o
mutante e o homossexual. As duas “espécies” não partilham somente
características como o medo do estigma social, a insegurança e a confusão em
torno da aceitação própria, mas também um histórico longo de perseguição e
preconceito. A incompreensão acompanha-as desde o seu surgimento, e não menos
expressiva é sua repressão, seja por robôs sentinelas gigantes ou por
intolerância violenta de uma sociedade tradicionalista. Ambas sofreram com a
negação de seus direitos e de sua condição humana, com os severos ataques de
natureza moral, com o alvo que a sociedade pôs em suas costas.
O
ativismo também lhes é uma característica comum. Como esperado de um fenômeno
de ordem social, os homossexuais lutam por seu direito de existir, o que
implica no surgimento de várias ideologias voltadas para as formas de
aceitação, muitas vezes contrárias entre si. De um lado, há aqueles que
acreditam em uma aceitação gradativa, na educação e na reavaliação de valores
como ferramentas para esse fim. Do outro, indivíduos que não admitem a
interação com uma sociedade que lhes é hostil, ou seja, não se permitem lidar
com a intolerância, sendo intolerantes à sua própria maneira. Com os mutantes é
parecido: há os pacifistas, como o telepata Charles Xavier e seus alunos, os
X-men, e os extremistas, como Magneto e seus acólitos.
No
entanto, a homossexualidade não se liga a odisseia dos mutantes somente pelo
contexto, mas pela representatividade que vem ganhando em suas páginas. Há
personagens declaradamente homossexuais ou até mesmo bissexuais, como Estrela
Polar, Anole e Mística (esta última até mesmo por conta da natureza andrógina de sus mutação), o que chama a atenção devido ao conservadorismo
editorial sob o qual as revistas em quadrinhos são mantidas. Ousadia sempre foi
uma das características da Marvel Comics, que soube retratar assuntos polêmicos
em tempos em que os valores não eram tão flexíveis quanto são em nossos dias.
Confrontando
as ordens sociais e biológicas vigentes, os homossexuais e os mutantes são bons
exemplos de diversidade social, uma forma de exercitar as limitações da
perspectiva geral. Bem mais que isso, são uma grande esperança para a voz
reprimida, quase marginalizada, que em tempo algum deve cair diante da falta de
liberdade de expressão, da negação de representatividade. Nada mais fazem do
que exigir a própria existência, do que sugerir mobilidade para as mentes
estagnadas, do que esclarecer que não nasceram para ser heróis ou vilões, mas
simplesmente pessoas.
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