Será a mais bela.
Dizia o artista para si mesmo, todos os dias. Dizia para o
vento, dizia para a água, para os deuses, e dizia para o grande bloco de
mármore.
As outras têm falhas.
Será a mais bela.
As meretrizes fediam a pecado, as
senhoras casadas, a dissimulação. As donzelas fingiam inocência e as anciãs
confundiam sabedoria com fofocas.
Mas
você não. Será perfeita.
Quando se cansou das fêmeas artificiais que era obrigado a
aturar todos os dias, o artista foi ao ermo, para as terras esquecidas que
pertenciam aos tios. Em meio a tantos gracejos, falsidades e luxúria, não
poderia enxergar a Musa, tampouco a alma que ela escondia. Haviam-se passado
meses desde que produzira algo; a febre da criação é a verdadeira amante dos
artistas, sua falta é a verdadeira doença. A febre é sua saúde.
Na cabana, longe dos sussurros e
gritos da cidade, ele pôde ouvi-la melhor, ao silêncio também, mas quis mais.
Queria vê-la. Seus contornos e seios, ancas e tornozelos, os olhos de ouro e
entre as coxas o tesouro. Inspirou-se na inspiração, e a febre tomou-o como
lepra. Caíam-lhe a vaidade e o medo, junto com o pudor. Cada martelada no
cinzel soava como nota aguda de coito, uma música sensualmente indecente, e o
artista esquecia-se do mundo.
Quando a pedra mostrava-se rígida às
estocadas de suas ferramentas, o artista sabia que sua Musa não estava
satisfeita. Ele se recolhia a um canto e esperava, só esperava, até que a moça
sem forma acalmasse os humores. Magoava-o profundamente vê-la daquele jeito,
insatisfeita com a vida que ganhava.
Também
não estaria satisfeito se vivesse algemado.
E assim, seus esforços dobraram, dominado pelo desejo de
libertá-la da rocha, lasca por lasca, sentindo que ela sorria a cada golpe,
toda vez que o cinzel e o martelo cantavam e a faziam gemer. O artista podia
sentir-lhe o calor, o prazer, o membro enrijecer conforme lhe esculpia a
virilha e o que vinha depois. Desejava-a, mas ela ainda estava presa demais à
rocha.
Nem a fome ou a sede afastavam-no de
sua Musa. A pele era nada mais que couro pálido sobre os ossos, estendida de
modo a imitar o homem que um dia foi o artista. As curvas da Musa se definiam
enquanto as dele endureciam e grudavam-se às costelas. Ela ganhava vida, podia
ver, podia sentir, a cada dia, mais e mais e mais e mais ainda, até que, quando
os pés enfim estivessem livres, ela poderia se erguer. E dançar, seria
maravilhoso se pudesse dançar. Poderiam dançar juntos, não naqueles bailes em
que as fêmeas se empavonavam e mentiam, mas sob a lua e as estrelas, sobre
grama e orvalho, à vista do olho dos deuses, banhados pela noite e pelo vinho.
E
lhe farei um filho.
Chamava-se Galatea. Sabia que era esse o nome, pois ela
tinha dito entre sussurros abafados e febris da noite anterior. Disse o quanto
ansiava por abraçá-lo, por dançar entre suas linhas, por sentir-lhe de novo as
punhaladas do cinzel. E o artista se pôs a trabalhar como louco, lobo alucinado
de fome que precisa quebrar os ossos de um animal qualquer antes de lhes sugar
o tutano. E quebrou a pedra para lhe sugar o seio, ouvindo os uivos tímidos a
cada martelada, e não foram poucas.
Os uivos cessaram, tão súbitos
quanto vieram, e uma leve camada de suor e pó separava-lhes a pele. O delírio
ofegante durou pouco; logo o artista percebeu, para sua tristeza, que Galatea,
mesmo depois de pronta, ainda era mármore, linda e gelada. A voz ainda era
baixa demais para ser uma voz, baixa como o som que fazem as raízes dos montes
aose espalhar pela terra, uma voz de estátua.
Por
quê?
Ela respondia com risos.
De novo, era dura como pedra. Os
seios afiados provocavam-no, enquanto uma das mãos escondia o triângulo
enfeitiçado. Galatea é cruel, inflexível, e parecia divertir-se mais com o
cinzel. Ele a amava, enquanto ela amava a si mesma.
Por
quê?
Ela estava livre, mas recusava-se a tirar o mármore de cima
da carne. O artista compreendeu que não a teria mais do que já teve, nem
Afrodite esquentaria aquele coração tão duro. Ele costumava beijá-la, tocá-la,
dar-lhe prazer, mas tudo o que Galatea fez foi usá-lo. Não era uma meretriz,
mas uma megera. Os olhos cinzentos zombavam dele, de seu coração mole e
adocicado. Fraco, ele ouvia, fraco e fraco mais uma vez. Risos de escárnio assobiavam com o vento, tão
frios e cheios de crueldade quanto os beijos que não dava.
As preces do artista foram atendidas
de modo cruel, ossos do ofício. Pediu um corpo para sua Musa, sua Galatea, e os
deuses deram-lhe pedra. Rezou por amor, e os deuses deram-lhe uma chaga no
peito, uma mácula na alma. Galatea sequer fazia o esforço de tocá-lo, sempre
rindo de seu sofrimento.
- Galatea, oh cruel Galatea! Da
rocha dura e fria moldaram-te os deuses, agora o céu ri de mim, seu espetáculo
de palco. Já não encontro morte suficiente no passar dos anos, também a
encontro nos lábios de Galatea?
Os deuses impediram-no de ter amor,
sempre o fizeram, mas não de ter um martelo em suas mãos. Em seus lábios,
Galatea também encontraria morte.
Tempos depois, as pessoas começaram
a questionar o que teria acontecido ao jovem Pigmalião. Não o viam mais
presenteando reis e rainhas com suas obras, nem ensinando ladrões e ciganos os
caminhos de sua arte. Tão desejoso de agradar, tão ávido por um elogio, tão morto
atrás de um sorriso de mármore.
Seus irmãos procuraram-no na casinha
gasta perto do lago, certos de que estava bêbado sobre pilhas de belos
cascalhos e membros de pedra. Na pequena cabana, no entanto, ele estava bêbado
com outras coisas. Ébrio de umidade, ébrio de mofo e poeira, e ébrio com um
beijo. À meia luz que se derramava pelo teto em putrefação, viram mais uma das
obras do irmão mais jovem.
Uma escultura dele mesmo, esculpido
em mármore branco mal acabado, contorcendo-se entre os braços de uma mulher
toda fúria, volúpia e alegria. Preso em suas curvas, de martelo na mão e lábios
ocupados, parecia quase feliz.
