Antes de ir embora, Serafina avisou-a do que poderia
acontecer. Uma pena que não tenha dado tanta atenção. Agora, há escombros nas
entradas, cristais de poeira e gelo no ar e desespero em seu coração. O inimigo
a espreita, ela pode sentir o cheiro do sangue, pode sentir o toque de seus
últimos minutos. Logo estará morta.
A missão de Melia era simples.
Deveria escoltar Páris, filho do senhor Siegfried e herdeiro da Fortaleza
Elien, em sigilo através da costa norte de Esmirna até as praias congeladas de
Éfeso. A escolta era pequena, hábil, composta pro três dos melhores assassinos
do senhor de Elien e dois chacais, mercenários contratados, além da própria
Melia, capitão a serviço do príncipe.
Desde que puxou o menino de dentro
da Senhora de Elien, era seu dever protegê-lo. Teria morrido de bom grado por
seu jovem senhor, mas as flechas caíram rápido, os inimigos eram muitos. Teria
morrido de bom grado por seu jovem senhor, mas o medo tomou o lugar da honra
quando os íncubos, soldados de Valhala, saíram da água e se aproximaram por
trás.
Não houve lugar aonde pudessem se
esconder no porto. Melia e o último chacal abriram caminho entre os soldados
negros, sob chuva de espadas e cimitarras, até um dos armazéns que se agarravam
às rochas. As paredes de metal e rocha garantiriam algum tempo, minutos
preciosos que talvez, só talvez, gerariam um plano.
Os íncubos não tinham intenção de
dar esse tempo. A tranca não aguentou mais que segundos, e tudo o que Melia
conseguiu fazer foi ler. “Pólvora”, escrito em vários barris pelo armazém. “Pólvora”,
“pólvora”, “pólvora”. Ela não via íncubos, nem seu príncipe ou o mercenário, só
as letras em tinta verde. Seu pensamento seguinte foi “fogo”.
E fogo ela atirou sobre os barris.
Lascas de tocha trazia na bagagem, e acendê-las foi rápido. Rápido como as
luzes e explosões que vieram em seguida. Fogo e luzes de muitas cores brotavam
de cada recipiente, espalhando-se pelas paredes e teto, pelas caixas e íncubos.
Madeira e aço rangiam e partiam, cantando a música da ruína. E depois nada,
nada além de um branco puro, gelado.
O único calor que sentia eram as
queimaduras nas costas. O busto, os braços as pernas... todos anestesiados. A
neve a abraça cruelmente, entre dentes de pedra e agulhas de pinheiro. Não havia
príncipe, não havia mercenário nem íncubo, só uma figura alta, esguia, coberta
de ametista, a fitá-la por detrás das chamas agitadas.
Sangue lhe cobria o rosto, farpas de
madeira se enterravam em seu braço, mas nada disso a impediu de correr o máximo
que podia. Ele era pior do que queimaduras e cortes, do que íncubos e medo. A
espada que não encontrava nem a adaga presa na greva não seriam de grande
ajuda, tampouco a culpa em não defender seu senhor ou o remorso em deixá-lo
para trás.
Corria como se os chicotes de Zeus
estalassem às suas costas. Deu graças a todos os deuses quando viu as ruínas do
pequeno templo de Nereu, divindade marinha, e se embrenhou entre pau, pedra e
pó. O choro não fazia barulho, mas o medo exalava um fedor de cadáver, tão nauseabundo
e fascinante que aquele homem... aquele monstro... sentiria de muito longe.
Antes de ir embora, Serafina
avisou-a do que poderia acontecer. Uma pena que não tenha dado alguma atenção.
O demônio se aproximava sem aviso, ela sabia, sabia e não faria nada. Logo
estará morta.
Horas se passavam a cada segundo,
trazendo à sua garganta uma mistura ácida de vômito e medo. O completo silêncio
lhe dava alguma esperança, mas também a envenenava com ansiedade. Esperava um
baque nas portas destruídas, uma mão rígida em seu ombro, ou quem sabe um
machado em seu pescoço, piedoso em lhe dar uma morte ágil.
Nada disso aconteceu.
Um lamento baixo foi o que lhe veio
aos ouvidos. Um gemido cansado, choroso, derrotado. O coração derreteu com a
voz de seu príncipe, seu garotinho, clamando por ajuda, sem qualquer vida no
chamado fraco. Melia deixou o esconderijo, radiante pela chance de manter sua
vida e sua honra. Abraçando o corpo
ferido de seu jovem e abatido mestre, ela mal notou a mão de ametista
fechando-se em seu pescoço, sufocando-a. Não era seu mestre, afinal. Era
Mefisto, a Besta dos Vários Rostos.
Antes de ir embora, Serafina
avisou-a do que poderia acontecer. Uma pena que não tenha dado atenção alguma.
No fundo, ela sabia que seria assim, como sugeriu o demônio aos seus ouvidos.
Logo estará morta.
Retirado de “Evangeline
– Contos lembrados por ninguém”
