quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Não há flores na neve



Antes de ir embora, Serafina avisou-a do que poderia acontecer. Uma pena que não tenha dado tanta atenção. Agora, há escombros nas entradas, cristais de poeira e gelo no ar e desespero em seu coração. O inimigo a espreita, ela pode sentir o cheiro do sangue, pode sentir o toque de seus últimos minutos. Logo estará morta.
            A missão de Melia era simples. Deveria escoltar Páris, filho do senhor Siegfried e herdeiro da Fortaleza Elien, em sigilo através da costa norte de Esmirna até as praias congeladas de Éfeso. A escolta era pequena, hábil, composta pro três dos melhores assassinos do senhor de Elien e dois chacais, mercenários contratados, além da própria Melia, capitão a serviço do príncipe.
            Desde que puxou o menino de dentro da Senhora de Elien, era seu dever protegê-lo. Teria morrido de bom grado por seu jovem senhor, mas as flechas caíram rápido, os inimigos eram muitos. Teria morrido de bom grado por seu jovem senhor, mas o medo tomou o lugar da honra quando os íncubos, soldados de Valhala, saíram da água e se aproximaram por trás.
            Não houve lugar aonde pudessem se esconder no porto. Melia e o último chacal abriram caminho entre os soldados negros, sob chuva de espadas e cimitarras, até um dos armazéns que se agarravam às rochas. As paredes de metal e rocha garantiriam algum tempo, minutos preciosos que talvez, só talvez, gerariam um plano.
            Os íncubos não tinham intenção de dar esse tempo. A tranca não aguentou mais que segundos, e tudo o que Melia conseguiu fazer foi ler. “Pólvora”, escrito em vários barris pelo armazém. “Pólvora”, “pólvora”, “pólvora”. Ela não via íncubos, nem seu príncipe ou o mercenário, só as letras em tinta verde. Seu pensamento seguinte foi “fogo”.
            E fogo ela atirou sobre os barris. Lascas de tocha trazia na bagagem, e acendê-las foi rápido. Rápido como as luzes e explosões que vieram em seguida. Fogo e luzes de muitas cores brotavam de cada recipiente, espalhando-se pelas paredes e teto, pelas caixas e íncubos. Madeira e aço rangiam e partiam, cantando a música da ruína. E depois nada, nada além de um branco puro, gelado.
            O único calor que sentia eram as queimaduras nas costas. O busto, os braços as pernas... todos anestesiados. A neve a abraça cruelmente, entre dentes de pedra e agulhas de pinheiro. Não havia príncipe, não havia mercenário nem íncubo, só uma figura alta, esguia, coberta de ametista, a fitá-la por detrás das chamas agitadas.
            Sangue lhe cobria o rosto, farpas de madeira se enterravam em seu braço, mas nada disso a impediu de correr o máximo que podia. Ele era pior do que queimaduras e cortes, do que íncubos e medo. A espada que não encontrava nem a adaga presa na greva não seriam de grande ajuda, tampouco a culpa em não defender seu senhor ou o remorso em deixá-lo para trás.
            Corria como se os chicotes de Zeus estalassem às suas costas. Deu graças a todos os deuses quando viu as ruínas do pequeno templo de Nereu, divindade marinha, e se embrenhou entre pau, pedra e pó. O choro não fazia barulho, mas o medo exalava um fedor de cadáver, tão nauseabundo e fascinante que aquele homem... aquele monstro... sentiria de muito longe.
            Antes de ir embora, Serafina avisou-a do que poderia acontecer. Uma pena que não tenha dado alguma atenção. O demônio se aproximava sem aviso, ela sabia, sabia e não faria nada. Logo estará morta.
            Horas se passavam a cada segundo, trazendo à sua garganta uma mistura ácida de vômito e medo. O completo silêncio lhe dava alguma esperança, mas também a envenenava com ansiedade. Esperava um baque nas portas destruídas, uma mão rígida em seu ombro, ou quem sabe um machado em seu pescoço, piedoso em lhe dar uma morte ágil.
            Nada disso aconteceu.
            Um lamento baixo foi o que lhe veio aos ouvidos. Um gemido cansado, choroso, derrotado. O coração derreteu com a voz de seu príncipe, seu garotinho, clamando por ajuda, sem qualquer vida no chamado fraco. Melia deixou o esconderijo, radiante pela chance de manter sua vida e sua honra. Abraçando o corpo ferido de seu jovem e abatido mestre, ela mal notou a mão de ametista fechando-se em seu pescoço, sufocando-a. Não era seu mestre, afinal. Era Mefisto, a Besta dos Vários Rostos.
            Antes de ir embora, Serafina avisou-a do que poderia acontecer. Uma pena que não tenha dado atenção alguma. No fundo, ela sabia que seria assim, como sugeriu o demônio aos seus ouvidos. Logo estará morta.
Retirado de “Evangeline – Contos lembrados por ninguém

domingo, 14 de outubro de 2012

Em cima da colina


              Nunca tinha visto tantos soldados antes. Meu pai sempre contou histórias sobre o Exército Vermelho, mas vê-los ali, marchando ao pé do vilarejo, tão perto que meus ouvidos doíam com cada passada, foi mais do que eu esperava ver.
            Fomos instruídos por nosso Ancião a não tomar parte naqueles jogos de sangue. Vemos sangue todos os dias, dizia ele, mas não me parece certo ficar de braços cruzados enquanto aqueles golpes de espada moldam o mundo. Vejo a alvorada no Leste, vejo a Lua Negra no Oeste, e me limito a isso, a ver?
            Valhala, o Castelo Assombrado, sempre me perturbou, mas nossas terras nunca padeceram. Claro, o ar é frio demais para se plantar algumas coisas e temos mais saqueadores do que gostaríamos, mas exigir que nosso governo mude o clima ou a natureza dos homens é um pouco demais. Azazel, a Serpente Alada, poderia ajudar com o frio, mas ele não está entre as fileiras de Valhala. Temos Lilith, a Rainha, e não há porque chamar seu mando de tirânico.
            Por outro lado, a Aliança dos Reis e seus sacramentais nos trouxeram luz, nos trouxeram a graça da manhã, nos trouxeram a herança do Empíreo direto das lendas. É curiosa a alegria em ver a maravilha dourada no Leste, lembrando-nos que já tivemos dias melhores. Contudo, seja a Ditadura ou a Aliança, nenhum deles pôs pão em nossa mesa ou fogo em nossas lareiras. Estão muito preocupados com suas cruzadas pelo poder.
            O relinchar de hipólitos e lâminas chamou minha atenção para os cavaleiros. O de armadura negra lembrava as histórias que ouvimos sobre o Mentalista de Ônix, capaz de ler mentes e matar só com o pensamento. Os gêmeos Hasten já nos são conhecidos, abateram grandes alces para nós semanas antes, com aquelas setas fulgurosas, como uma oferta de paz e garantia da travessia deles. A terrível Illyana, com sua arma de três dentes, acompanhava um rapaz enorme, com músculos de pedra.
            Reconhecer o famoso Mago Vermelho foi o mais fácil, pois não havia outro ancião na comitiva. Uma guerreira linda cavalgava ao seu lado, cujo escudo trazia esculpido o rosto da górgona medonha. Um rapaz pouco mais novo que ela sumia e tornava a aparecer ao seu redor, talvez para diverti-la. Meus amigos o chamavam de Espectro, mas um garoto não assusta muito.
            Eram todos senhores de poderes terríveis e armas perigosas, cujas trombetas anunciavam morte e as montarias traziam guerra para nosso povo.
            Lilith não tardou a responder à marcha inimiga, bem antes do que esperávamos. Nuvens negras, vivas demais para serem apenas nuvens, mergulharam a todos eles em uma luta vã contra o ar. Só depois notei que eram os corvos da terra dos medas, predadores cruéis que preferiam carne fresca a dos mortos. Há séculos deixaram de ser carniceiros.
            Aquela tropa não teria resistido muito tempo não fosse as chamas que surgiram do nada, sob ordens da única em Hélade que ainda tem sangue divino. A Jovem Héstia não perdoou nenhum dos pássaros homicidas, incendiando-os com as flamas que a deusa lhe concedeu. A chuva de fogo foi a coisa mais impressionante que eu vi na vida, com os corvos servindo de pequenas estrelas cadentes que se tornavam negras ao atingir a brancura da neve.
            Aquelas pessoas... admiro-as, temo-as. Eles nos trouxeram luz, nos trouxeram guerra, nos trouxeram escolhas amargas. A Rainha Lilith quer destruí-los, eles querem destroná-la, mas ninguém nunca nos perguntou o que queríamos.
Retirado de Evangeline – Contos lembrados por ninguém